sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A saudade tem nome

Sinto cada vez menos a tua presença, dei-me conta de que já passou um ano.
Sua falta me faz sangrar repetidamente, dia após dia, causando uma dor que não cessa.
Entendo sua recente partida como uma libertação e não como esquecimento, você não pode me esquecer, não a mim, não eu que tanto te amei!
Mesmo que nenhuma palavra tenha sido dita, nossos olhos fizeram a promessa de que nossas almas estariam juntas para sempre.
Há um ano derramo as lágrimas mais ásperas que um ser pode possuir, cada gota representa uma súplica de saudade e desespero. Vazio.
Lembra, meu amor, quando nossos olhos pairavam sob um mesmo plano e olhos nos olhos, nossas almas eram nítidas um ao outro?
De olhos fechados quase consigo te sentir, seu calor, sua respiração... No entanto ao abrir os olhos encontro-me só, apenas com o delírio de te ter mais uma vez. Não tire isso de mim, é a maior prova de que você esteve aqui.
Foi amor, foi puro, foi verdadeiro, foi e é. Não me abandones mais uma vez, já é difícil o suficiente ter que prosseguir sem sua presença física, não mande sua alma para longe, longe de mim. Desde que você se foi, me restaram poucas ou nenhuma certeza; a sua alma pertence a mim, não tens o direito de levá-la, é só o que tenho. É tudo que possuo.

sábado, 18 de setembro de 2010

T-E-M-P-O


Tenho imensa saudade de um tempo que não me pertenceu, de um luxo que não desfrutei; recordo coisas que não vivi.
Do tempo em que não havia eletricidade; a querosene dos lampiões escurecia as paredes. Que saudade tenho disso, os banhos no inverno eram desconfortáveis, a medicina era precária e morria-se aos 40 anos, a vida era um pouco tediosa e o sexo desconfortável por causa da pele de coelho, era isso ou povoar o município de fazendas.
Os dias eram mais longos, a vida era quase sem propósito, a aventura que conhecíamos era um grande amor proibido. Nascíamos, crescíamos um pouco, então nossos pais faziam um acordo com outra família: casamento; crescíamos mais um pouco, escola, Igreja e lições de como ser uma boa esposa. Casávamos e reproduzíamos.
Com a falta do que fazer surgiu a Inquisição, afinal, a vida precisava de mistérios e ação. Qualquer ato incomum era considerado bruxaria, e muitos atos eram considerados suspeitos. A falta do que fazer também era um clima propício para fofocas, que sempre eram iniciadas pelo grupo de mulheres viciadas em Igreja.
A Igreja manipulava as informações que seriam repassadas ao povo (e cá para nós, não era melhor assim?! Não tínhamos preocupações, a vida resumia-se em nosso vilarejo), quanto mais ignorante o povo melhor para a Igreja.
O direito da mulher aos estudos exigiu muita luta. Saímos vitoriosas!                                       
À céu aberto tudo era pecado, à quatro paredes éramos os pecadores que mais mereciam o inferno.
 A vida era tão simples. Procurávamos problemas onde não existiam, só para passar o tempo.
Não sangrar na noite de núpcias era uma desonra a família, com direito a morte. Essa era a parte ruim, assim como o desconforto da carroça.
Ser nobre significava não fazer esforços físicos e não tomar sol, essas condições tornavam a vida ainda mais tediosa. Sem obrigações domésticas...
Os bailes eram mais freqüentes, os vestidos belíssimos; sinto falta dos espartilhos, emolduravam a cintura, dançávamos todos iguais.
Respeitar aos mais velhos era lei, quando jovens éramos contrários a muitas atitudes que tomavam e relação a nós, quando chegávamos à idade deles compreendíamos que tudo fora para nosso bem.
São essas coisas que me fazem falta... Uma vida simples, sem correrias.

sábado, 4 de setembro de 2010

Corredor da morte

Passos pesados e vagarosos, um passo a mais significava um passo a menos. A angústia de estar cada vez mais perto era quase tão grande quanto a de ainda estar tão longe.
O corredor era extenso, silencioso e branco, muito iluminado, os zumbidos das lâmpadas frias eram de dar nos nervos; vez em quando se escutava uma sucessão de “tocs tocs”, som de mais passos pesados e vagarosos.
De minuto em minuto, pensava na vaga idéia de mudar o sentido, direção e velocidade dos passos. Naquele momento era apenas um corpo em movimento; a expressão estava vazia, o ar tornou-se denso, dava sensação de frio, mesmo tratando-se de uma noite de verão, as mãos frias e molhadas.
É de fato incrível em quantas coisas a mente humana é capaz de pensar em apenas um segundo, o psicológico faz os ponteiros do relógio correrem e esquecerem-se de completar uma volta ao mesmo tempo, torna-se uma tortura, batalhas sem vencedores.
Faltavam somente alguns passos, a respiração perdeu o ritmo, a mão trêmula esticou-se contra vontade para girar a maçaneta... Sem saber o que aconteceria e como aconteceria. De olhos fechados a coragem chegou tímida. A porta foi aberta, e do lado de dentro estavam todos de pé, com expressões sérias; ficou nítido que ninguém sabia lidar com a situação, o silencio que sucedeu após a abertura da porta praticamente gritava por uma explicação plausível. Uma sirene ao longe quebrou o silêncio, interrompendo a exigência que o mesmo fazia; sucessões de “tocs tocs” agora cada vez mais rápidos pesaram o clima, os olhos de todos que ali estavam pousaram alarmados sobre a protagonista. Lágrimas escorreram caladas e vagarosas pelo rosto branco e delicado.
Quanto mais tempo se passava, mais chances eram desperdiçadas, chances que não voltariam e tempo que não poderia ser recuperado.
Já completava três dias sem noticias, bombardeios de descobertas que não fariam nenhum pai feliz; a duplicidade foi a forma que encontrou para encarar a vida.
Ela pensara em tudo. Escreveu, em seus papeis cor-de-rosa com desenhos infantis, contando onde esteve e descrevendo sua personalidade até então desconhecida por quase todos, nunca fora a filha desejada; explicações questionáveis agora já não importavam mais. Só se sabe a dor de perder um filho quem possui um. Assim fora sua vida, só compreendia quem acompanhava a dor, o medo, as noites em claro...
E foi assim, com lágrimas silenciosas, o ar denso e todos a olhando, em um movimento meticuloso, sacou uma arma da bolsa empoeirada, sem responder a nenhuma pergunta, sem citar uma palavra, apontou para sua cabeça, bem atrás da orelha e antes que qualquer um pudesse ao menos entender o que acontecia puxou o gatilho.
Instantes antes havia pensado em deixar seu rosto intacto, para que lágrimas ensaiadas pudessem escorrer sobre seu cadáver.